Vale a pena contratar Squad as a Service para projetos de IA?

Uma vaga de especialista em IA aberta hoje no Brasil pode ficar até 90 dias sem ser preenchida. Não é exceção — é a realidade em cerca de um quarto das empresas que tentam contratar esse perfil agora [1]. Enquanto essa vaga fica aberta, a iniciativa de IA que dependia dela também fica: parada, no papel, sem ninguém para assumir.
Isso expõe um problema maior do que a dificuldade de contratar: a maioria das empresas trata capacidade de entrega e contratação como sinônimos — e são coisas diferentes. Os números abaixo mostram o tamanho real do gargalo e onde ele de fato está.
O tamanho do gargalo, em números
Segundo levantamento da Forbes Brasil, as vagas mais difíceis de preencher no mercado de tecnologia hoje não são mais as genéricas. Lideram os especialistas em inteligência artificial, com cerca de 35% de dificuldade de preenchimento, seguidos por engenheiros de software, com aproximadamente 31% [1]. Em quase um quarto das empresas pesquisadas, uma vaga desse tipo pode levar até 90 dias para ser preenchida — e para metade delas, o processo já leva de um a dois meses.
O dado ganha ainda mais peso quando cruzado com a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 do ManpowerGroup, que ouviu cerca de 39 mil empregadores em 41 países, sendo 1.020 no Brasil: 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para contratar — oito pontos percentuais acima da média global, que já está em 72% [2]. Não é um problema pontual de um setor. É um padrão estrutural que o Brasil enfrenta de forma mais aguda que a média mundial.
Reportagens da Exame e análises setoriais como as da Bradata reforçam a mesma leitura: o déficit estrutural de profissionais de TI no Brasil já ultrapassa 100 mil vagas por ano, com projeções da Brasscom apontando para mais de 530 mil posições em aberto até 2026, e estimativas da McKinsey sugerindo um déficit acumulado de cerca de 1 milhão de profissionais até 2030 [3,4]. Os números variam conforme a metodologia, mas convergem na mesma direção: a demanda por talento técnico, e sobretudo por talento em IA, cresce mais rápido do que a oferta consegue acompanhar.
O custo não é só financeiro — é de tempo
Tratar esse problema como uma questão de orçamento — pagar mais para contratar mais rápido — ataca apenas parte dele. O dado mais revelador não é o custo, é o tempo. Enquanto um processo seletivo roda por 60 ou 90 dias, o projeto de IA que dependia daquele especialista não avança devagar: não avança.
Isso muda a natureza do problema. Não se trata apenas de "encontrar a pessoa certa", mas do custo de oportunidade acumulado enquanto essa pessoa não é encontrada. Um roadmap de inovação com uma iniciativa de IA travada por três meses não é um roadmap atrasado em três meses — é um roadmap que perdeu a janela de decisão que motivou o projeto em primeiro lugar.
Capacidade de entrega não é a mesma coisa que headcount fixo
Dois problemas costumam ser tratados como um só: "faltam pessoas" e "falta capacidade de entrega". São coisas diferentes, e a confusão entre elas explica parte do motivo pelo qual tantas empresas ficam paradas esperando uma contratação.
Contratar resolve capacidade de entrega, mas é a forma mais lenta e mais rígida de resolver. Modelos de staff augmentation, squads dedicados e squads geridos com SLA — o que no mercado já se chama de Squad as a Service — surgem exatamente como resposta a esse gargalo: em vez de esperar meses por uma contratação, a empresa acessa capacidade especializada já formada, com o provedor absorvendo o risco de gestão, metodologia e eventual substituição de profissional [4].
Squad não substitui contratação — são ferramentas diferentes para momentos diferentes. Contratar faz sentido quando a competência precisa ficar internalizada, fazer parte da cultura, crescer com a empresa a longo prazo. Squad faz sentido quando a decisão de negócio não pode esperar um trimestre inteiro por um processo seletivo.
A diferença entre os dois modelos também aparece na estrutura do risco. Numa contratação direta, o risco de escolha errada, de turnover ou de descompasso entre a expectativa e a entrega recai inteiramente sobre a empresa contratante — e o custo de reverter uma contratação malsucedida é alto, tanto financeiro quanto organizacional. Num modelo de squad gerido com SLA, esse risco é compartilhado com o provedor, que responde contratualmente pela entrega e pela substituição de profissionais quando necessário. Isso não elimina o risco do projeto de IA em si, mas remove uma camada de incerteza que, historicamente, é a que mais atrasa decisões de tecnologia.
É esse o modelo que a iTalents aplica na prática. A empresa sustenta cerca de 30 mil horas anuais de trabalho na expansão da TOTVS no setor público, e mantém IA atendendo aproximadamente 16 mil disciplinas na Unyleya, através do TutorIA. Nenhum dos dois projetos começou esperando 90 dias por uma vaga aberta, porque a capacidade já estava formada e disponível no momento da decisão.
A pergunta certa antes de abrir uma vaga
O erro mais comum é tratar contratação e squad como a mesma decisão, com o mesmo prazo e o mesmo risco. Não são. Antes de abrir uma vaga técnica para destravar uma iniciativa de IA, a decisão deveria passar por duas perguntas distintas: a competência precisa ficar internalizada a longo prazo, como parte da estrutura permanente da empresa? Ou o que falta, neste momento específico, é capacidade de entrega imediata para uma decisão que não pode esperar um trimestre?
A resposta muda o caminho — e, mais importante, muda o tempo que a iniciativa de IA fica parada enquanto esse caminho não é escolhido. Em um mercado onde o déficit de talento técnico já é estrutural e segue crescendo, tratar toda necessidade de capacidade como uma vaga a ser aberta é, na prática, aceitar que o roadmap de inovação vai andar no ritmo do processo seletivo mais lento — não no ritmo que o negócio exige.
Fontes
[1] Forbes Brasil — "Escassez de talentos em tecnologia desafia 98% das empresas no Brasil" (abril de 2026): https://forbes.com.br/carreira/2026/04/escassez-de-talentos-em-tecnologia-desafia-98-das-empresas-no-brasil/
[2] ManpowerGroup — Pesquisa de Escassez de Talentos 2026: https://www.manpowergroup.com.br/insights/estudos/pesquisa-de-escassez-de-talentos-2026
[3] Exame — "Quais profissionais estão em falta no Brasil com o avanço da inteligência artificial": https://exame.com/inteligencia-artificial/quais-profissionais-estao-em-falta-no-brasil-com-o-avanco-da-inteligencia-artificial/
[4] Bradata — "Staff augmentation no Brasil: guia de outsourcing, squad dedicado e alocação de talentos em TI": https://www.bradata.com.br/blog/staff-augmentation-outsourcing-squad-dedicado-brasil
Paulo Camargo é Fundador & CRO da iTalents, estúdio de tecnologia e IA.